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Apresentação:

Este blog é dedicado aos atuais e futuros idosos para que tenham uma vida mais feliz e menos complicada.
Minha mãe, Leda Rosin, escreveu textos e poemas com o objetivo de lançar um livro para ajudar o Asilo Padre Cacique de Porto Alegre, RS, mas não conseguiu patrocínio.
Criei este blog como homenagem para que seu trabalho não fique esquecido numa gaveta e para que ela se sinta feliz.
Este é um blog para todas as idades!



Esta turma respeita os idosos!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A velhice segundo uma septuagenária


LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER

de Ribeirão Preto, SP



De repente ou quase, sentimos dificuldade e dor ao prender a presilha do sapato, ao agachar para pegar algo do armário debaixo da pia, em ficar numa perna só, durante o banho, para lavar o pé; felizes, vamos pegar nos braços a netinha temporona que veio alegrar uma família numa volta a um passado não muito distante e, após alguns minutos os braços e as pernas não agüentam e, constrangidos, temos de devolvê- la à mãe, a quem embalamos…

De repente, não mais que de repente, conscientizamo-nos de que estamos velhos e um tanto assustados, pensamos: a velhice chegou!

Paramos, pensamos em tudo que vivemos e fizemos, nas experiências diversas e diferentes, umas boas, outras não tanto, mas o que mais chama a nossa atenção é lembrarmo-nos de como éramos e como estamos agora.

Fisicamente, a diferença é gritante, quase sempre nem nos reconhecemos. Todavia, devido a essa maravilhosa invenção do espelho, essa percepção do envelhecimento não acontece de repente, ela vai acontecendo, lentamente, na medida do seu processamento.

O não poder mais fazer as mesmas coisas que se fazia, não aos vinte anos, mas aos cinqüenta ou mesmo aos sessenta nos surpreende e, muitas vezes nos assusta muito mais.

O que causa muita surpresa, na constatação dessa fase, é a percepção de que se continua sendo a mesma pessoa, com os mesmos ideais, os mesmos sentimentos, a mesma estrutura mental, plena de sonhos para o presente e para o futuro, vários não mais possíveis.

E eis aí a primeira vantagem da velhice de uma pessoa espiritualizada: perceber-se envelhecida por fora, mas sentir-se a mesma de sempre. Saber que se pode continuar otimista em relação ao futuro, na certeza de que a vida é eterna, não termina nunca. As realizações sonhadas serão realizadas mais tarde, em outro plano ou em outro corpo. Continua - se sempre aprendendo, porque viver é um aprendizado constante, aqui ou além.

É verdade que nos esquecemos, mais facilmente, das coisas mais recentes; a percepção de tempo e de espaço estão um tanto alterados: quantas e quantas vezes não sabemos se tomamos o remédio da manhã, embora nos lembremos de tê-lo tomado, só que essa lembrança é do ato de ontem e não do de hoje. Parece confuso e o é para o velho também. Quantas e quantas vezes não nos lembramos quem é a pessoa com a qual estamos conversando, ou sabemos quem é, mas não nos lembramos do seu nome ou do nome de sua mulher ou do seu marido, de quem queremos notícias e gostaríamos de mandar-lhe um abraço…

Essas e outras situações tão ou mais difíceis para o idoso não são todavia, catastróficas, são facilmente assimiladas se forem consideradas naturais na fase vivida, necessitando talvez, apenas de mais atenção, de maior uso do pensar raciocinado para amenizá-las, mas não evitá-las. “O que não tem remédio, remediado está”, diz o ditado popular.

Duas conseqüências podem se dar: rir das próprias atrapalhações ou chorar por causa delas. Rir é sempre o melhor, descontrai, miniminiza os efeitos, supostamente desagradáveis, e dilata a capacidade de compreensão e aceitação das dificuldades presentes.

Vemos aqui então, duas boas vantagens da velhice: a oportunidade do bom humor que as atrapalhadas naturais proporcionam - rir de si próprio é uma prova de amor a si mesmo - e a oportunidade de aceitação das coisas que não se pode evitar, embora se deva continuar tentando diminuir sua freqüência, exercitando mais a atenção, a observação, agilizando o raciocínio, enfim, continuando a desenvolver qualidades próprias do espírito e não do corpo .

Dar às situações o valor que elas têm, sem exagerar os efeitos, e continuar tentando fazer o melhor são duas coisas preciosas que talvez o idoso, pela sua experiência de vida, forçado pelas limitações do corpo envelhecido, tem mais possibilidade de compreender e fazer.

Outra coisa preciosa que a velhice traz é tempo. É verdade que agora a pessoa o usa com muito mais lentidão: faz o que pode, muito mais devagar, todavia, tem muito mais tempo para fazer coisas úteis e necessárias que antes não tinha, como procurar conhecer-se, recordando experiências passadas, suas reações a elas, percebendo que algumas dessas seriam novamente repetidas, outras não, constatando assim, o quanto transformou-se nesse período. Fazer isso com o objetivo de conhecer-se, de perceber o quanto aprendeu nesta vida, sem recriminações; ao contrário, perceber o progresso realizado, mesmo que pouco, constatando que naquele tempo não tinha o desenvolvimento espiritual que tem hoje, é sempre motivo de grande satisfação!

Uma verdade se impõe nestas considerações que fazemos: a eternidade de nossas vidas, de nós próprios, evoluindo sempre. Ao materialista, estes raciocínios não têm valor.

Pode o velho realizar outras coisas que não fazia por falta de tempo ou de oportunidade: ouvir mais música, ler mais do que gostar: jornal, revista, livro; interessar-se pela vida dos outros adultos, crianças e jovens netos, acompanhando seus aprendizados, não fechar-se nos seus pensamentos, isolando-se dos demais. Não pensar que os familiares não se importam com ele, mas procurar interessar-se por eles, demonstrando sua afeição, que mesmo em um ambiente, supostamente ou não hostil, sentimento bom atrai sentimento bom. Não se julgar melhor do que eles, mas pensar que tudo de bom que temos ou somos, todos os outros também têm ou são, ou podem ter ou ser..

Em geral o idoso, à medida que vai percebendo suas limitações físicas vai desistindo de fazer determinadas coisas, sem maiores reflexões. Desde que a pessoa começa a sentir-se fazendo determinada coisa, com mais dificuldade, não deve desistir dela. Enquanto puder fazê-la, mesmo que com menos eficiência ou levando mais tempo, continuar fazendo, desde que não seja prejudicial a outros. Muitas atividades têm de ser abandonadas, mas muitas poderão ser continuadas, e outras mais poderão ser iniciadas.

Se somos pessoas espiritualistas, sabemos que quem pensa, quem estuda, quem aprende é o Espírito e este, mesmo com um instrumento envelhecido, tem a possibilidade de aprender coisas novas. A própria ciência afirma hoje a possibilidade de formação de novas ligações entre os neurônios nos cérebros humanos.

Se a velhice é um tempo de demonstrar o que se aprendeu nesta existência, é também um tempo de continuar aprendendo, visto que, espiritualmente falando, somos Espíritos jovens, num processo de contínuo aprendizado, independente do estado do corpo físico.

Reconhecer e aceitar os próprios limites, levam-nos a ser mais tolerantes com as dificuldades alheias, tornando-nos melhores pessoas.

Atrevo-me a dizer que um corpo envelhecido proporciona ao Espírito encarnado oportunidades de experiências novas, de aprendizados outros, mais difíceis num corpo pleno de energia vital, com mil e uma atividades, tais como ceder a vez, renunciar em favor de, ser amável, compreensivo, afetuoso, poder aconselhar quando solicitado, percebendo o prazer de estar colaborando para um ambiente melhor.

O importante é considerar-se sempre um Espírito imortal, com infinitas potencialidades e infinitas possibilidades, seja qual for a idade que se tenha.

O homem que tem a consciência de que deve viver no caminho dos deveres e que no decorrer da sua vida, tem por meta principal esse cumprimento, chega à velhice e se surpreende com a sensação de liberdade que existe nele. Sente-se livre para fazer o que quer e percebe que as coisas que lhe são impedidas pelas deficiências físicas, não lhe fazem falta, visto estar então, fazendo, com muita alegria, outras coisas. Sente-se livre de obrigações, uma vez que a velhice seria um aceitável fator de impedimento de determinadas atividades, impedimento este que ele não usa, porque sente prazer em fazer o que faz, sem sentir-se obrigado pelo dever de ou pelo dever para com.

São tantas as vantagens da velhice, superando em muito as desvantagens, que… só experimentando-a pode-se descobri-las.
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Fonte:
http://esquinas.terra.com.br/userp_backup/jornal/vl196/ebner.htm

2 comentários:

Anne Lieri disse...

Que texto emocionante!No final somos eternos adolescentes porque a alma não envelhece e nesse texto há uma grande lição de vida:aprender a conviver com as mudanças usando o bom humor sempre!Bjs,

Pepi e Xixo disse...

Amiga querida,
Lindo e reflexivo texto
A velhice também tem o seu lado bom, é só parar para pensar
Um beijinho carinhoso
Verena e Bichinhos

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